• Victor Prado

Games nas escolas - a chave para o desenvolvimento econômico e educacional



Uma notícia recente entusiasmou o público gamer e chocou todos os demais: um jovem carioca, de 17 anos, conseguiu vaga e bolsa integral em uma faculdade da Florida, por ser atleta de videogame.


Talvez seja mais surpreendente ainda que tenha saído logo após a imprensa noticiar que médicos estão treinando com games para aperfeiçoar suas cirurgias.


Notícias parecidas já eram comuns antes da pandemia, porém com o crescimento ainda mais acelerado da indústria - que já superava a do cinema e da música juntas - passou a ser rotina ver os games surgindo nas vidas de quem desconhece o meio.


Poucos sabem, mas há inúmeras profissões e tecnologias que derivam dessa indústria bilionária. Tecnologias como o próprio smartphone, que se desenvolveu ao nível atual devido às demandas da indústria dos jogos por processadores e gráficos cada vez melhores. Prova disso está as lojas de aplicativos, onde os jogos eletrônicos figuram com o principal faturamento.


Com mais de 80 milhões de jogadores e uma das maiores taxas de penetração tecnológica do mundo, o Brasil é um dos maiores mercados de game. Por isso, chega a ser paradoxal o cenário incipiente da indústria tecnológica brasileira, e a postura da maioria das escolas – games como nêmesis da educação. Talvez o mais deprimente seja o fato de que a maioria dos jovens brasileiros, pensa em trabalhar com tecnologia, e não sabe o quão acessível é a indústria audiovisual 4.0 – aquela que eles tanto consomem.


Embora a preparação para o mercado de trabalho seja uma das metas educacionais, de acordo com a Constituição da República e a BNCC (Base Nacional Curricular Comum), o sistema educacional ainda não está adaptado ao atual nível de desenvolvimento industrial, nem às demandas - cada vez maiores - do mercado.


Isso acontece ao mesmo tempo em que o Brasil vive uma crise educacional sem precedentes, com taxas de evasão acima da média da OCDE. Vale lembrar que ainda em 2019, o PNAD já havia destacado a “falta de interesse” como responsável por 29% dos abandonos da educação. Fica a pergunta: como estimular o engajamento escolar e criar oportunidades profissionais na indústria tecnológica que mais cresce?


Games!


De acordo com uma pesquisa realizada na Inglaterra em 2010 (Next Gen Report), o uso de tecnologias nas escolas, para além do mero uso administrativo, pode ser a chave para ampliar as perspectivas profissionais dos jovens. Fizemos uma “versão” Brasileira dessa pesquisa na cidade de Maricá em 2019, quando realizamos o TI-Games, evento referenciado como a primeira e maior iniciativa municipal do Brasil com games nas escolas.


O artigo que publicamos em 2021 na SB Games, deixou evidente que os alunos que participaram da iniciativa utilizando games nas escolas, tiveram um aumento na confiança em relação às perspectivas profissionais na indústria de jogos.


Claro que toda mudança educacional começa com o professor, e não há como implementar uma solução tecnológica em massa, sem envolver o corpo docente. Justamente por isso, realizamos outro estudo também publicado em 2021, ainda com base na iniciativa de Maricá, mas dessa vez relatando a percepção dos professores em relação ao uso dos games em sala de aula.


Nada menos que 60% dos envolvidos disseram ter a intenção de estudar mais sobre jogos, e 80% disseram ter a intenção de usar games na sala de aula. A conclusão parece ser essa: os games são bem aceitos com alunos e com professores. Não é para menos, jogar é um elemento fundamental da cultura, e o hobby mais comum que existe.


Enquanto alguns discutem a implementação dissonante de impressoras 3D e realidade virtual nas escolas públicas do Brasil – tecnologias distantes da realidade de muitos – é sempre bom lembrar do nosso patrono da educação, Paulo Freire: “o aluno é um produto do seu meio”. Neste sentido, por que não usar a cultura que todos conhecem, na forma em que é mais aceita: os jogos?


Não se trata de oferecer mais ferramentas educacionais para professores, ou mais aparatos para os alunos - sendo nativos digitais ou não. O próprio diretor de educação da OCDE, Andreas Schleicher, disse que nesse cenário pós pandêmico fica claro que só o acesso não garante alfabetização midiática. Afinal, do que adianta ter o acesso sem a intenção de uso – no caso dos professores - ou a capacidade crítica de vislumbrar possibilidades para além do primeiro contato – no caso dos alunos? É a clássica “Lei de Amara” – a tendência de superestimar os efeitos de uma tecnologia no curto prazo e subestimar no longo prazo, talvez seja por isso que os jogos são subestimados em face de robôs, drones etc.


Se jogos são uma ferramenta, uma linguagem, um elemento fundamental da cultura e uma porta para uma indústria bilionária, o que falta para garantir seu uso além da diversão? É um trabalho de desmistificação e mudança de percepção. O professor que desconhece os usos e benefícios dos jogos na educação e possui resistência a essa ideia; e o jovem de escola pública que sonha em trabalhar com isso, mas se vê incapaz de ingressar na indústria por ser pobre.


Tendo realizado a primeira iniciativa de legitimação dos games na educação, a For Games não propõe um ensino tecnicista, mas mostrar para professores que, independentemente do formato - digital ou analógico – jogos são um meio de dinamização da sala de aula e uma chave para a comunicação com os alunos de hoje.


Paralelamente a isso, realizamos um direcionamento vocacional com os jovens, expondo a realidade acessível de se trabalhar com jogos e derrubando a dupla consciência que tanto impede o desenvolvimento autônomo no Brasil.


No final do dia, não há curso ou pessoa que ensine mais ou melhor, do que a própria pessoa motivada em aprender – seja professor ou aluno.